Segunda-feira, Novembro 09, 2009

capuchinho vermelho

e a morte disse: rica conversa. e no mesmo ápice deglutiu aquilo tudo.

a morte é minha amiga, terá de dizer-se, na espessura do sangue e da carne.

aqui, a mente queda-se, pois apenas lida com assuntos. e a morte não é um assunto.

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Nota

Deus está no ser retirando-se por dentro do haver deste.

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

O vento lá fora

Apenas morremos, diz o monge, porque amamos a morte, desejamo-la estonteadamente. É um segredo, claro, ocultamo-lo em voracidades e vitórias que se querem vivas e mordazes, mas é o próprio sabor do nada que as invade e as é, na medida em que se escoam, como tudo, ressoando nos poços sem fundo da memória. Sabemos da vertigem, da imensa tontura perante o vazio, da atracção. To sleep, to die, no more. Morremos no nosso desejo de repouso, de finalmente escoarmos e ir, desaparecermos, entrar no fim do outono sem fim, a última folha caída como a pálpebra na morte. O amor por tudo o que já foi e passou atira-nos de encontro ao desaparecimento, que desejamos então como um sonho imperscrutável. E assim morremos, em anseio próprio e decisão, pura paixão vital. Somos filhos do nada, e a seus modos são os nossos frutos, as nossas obras e saberes. Desejamos ir ter com os entes queridos que já foram, com a criança triste e alegre que nós próprios fomos. Desejamos reter sem deter este momento que mesmo agora passou. Do próprio futuro somos já saudade, disse o poeta. E só o criador, aquele que sustém presentes e concretos todos os tempos da vida, aquele que há no ser e igualmente se mantém havendo no nada, pode aí dar uma palavra. (Dá um gole no chá.) Pois, alguns de nós entregam-se à escuta directa dessa palavra de Deus que se dá para lá do tempo e da vida, para lá do ser e do nada, para lá de tudo. O puro e único deus que tudo cria e mantém, que cria o tempo e o espaço e todas as coisas vivas e mortas. Aqui, tentamos esvaziar-nos de todas as coisas internas e externas que sejam nossas, e poisar na eternidade onde Deus tudo retém sem deter, no em si do deus vivo. Tento fazê-lo neste preciso momento em que falo consigo, é essa a ideia. (Ri-se.) Poisar no tempo até ao fundo boiando na eternidade, frisa sorrindo, em qualquer tempo, no de lavar a louça até ao da mais fogosa paixão. Descascar uma cebola até Deus, disse o mesmo poeta, nem mais. Dê-me aí um cigarro. (Estendo-lhe o maço e o isqueiro.) Obrigado. Bem, e que tal irmos jantar ao ar livre, junto ao rio? Está uma noite magnífica.

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

Habitação 2

Nenhum de nós, se se levar aos seus limites, cabe em algum lugar, a não ser - em Deus.

Segunda-feira, Outubro 12, 2009

Habitação

Deus está lá fora no dentro.

Deus está nas coisas criando-as, doando-as a si próprias - isto é, retirando-Se.

Omnipresença sim, na doação de presença outra.

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

Manhã

Olhou para o espelho: duas ideias pendiam-lhe ao canto da boca. O sangue começou então a brotar, até jorrar cascata da sua boca para o lavatório. O sabor do sangue, como vapor odorífero na cabeça. Levou a mão à boca, à torrente, o líquido espesso como mercúrio, gelado tal qual. Durante dois ou três minutos aquilo parecia aumentar sem acabar. Depois o jorro começou a abrandar. Ele tossia. Cuspiu duas grandes escarretas de sangue em pasta frio, e sentiu que acabara. Que rica maneira de começar o dia! berrou. Sentia-se tonto, como num ataque de tensão baixa. Vai-te mas é embora senão ainda chegas atrasado, disse-lhe a imagem no espelho, impressionada sem o mostrar.

Segunda-feira, Julho 06, 2009

Ò miséria! Ó alegria!

Eis a pequena semente que sopra fugaz em todas as coisas e rostos, no soçobro da alma nós a vimos e vivemos, inteiramente na sua vinda em plena e divina estranheza.

Toda a nossa ida ao bem e ao belo, e toda a nossa justa ira no oposto se elevava e dirigia; mas o próprio deus nos visitou na carne e no rosto do seu filho, humilde entre todos. Não na mentira nem no disfarce, sem logro e sem ilusões ele nos mostrou o deus verdadeiro que adentro de todas as coisas e relações se esconde, mostrando-as e libertando-as no agir próprio delas; e que fulgura dito e contradito em todas as palavras e actos, que se buscam a si próprios, na medida em que se perdem no apocalíptico tempo.

Nós queríamos um mundo de luz e força que separasse os iníquos dos justos e deflagrasse nos primeiros a destruição; mas ele trouxe a luz do mundo no seu ser, a que desde o princípio dos tempos jaz na noite primeira, no segredo da vida que põe em marcha as coisas que são, no nada que foram e no vazio que serão. Ainda hoje e sempre, raramente o reconhecemos e amamos, a alma é traiçoeira, e a vontade de força e poder é o espinho que a nossa inteira carne continua a rasgar, e a resgatar; pois é na fragilidade do mundo e no rumor da sua fugacidade, que o deus a si próprio nos conduz.

Soubemos o que sempre fora dito pelos santos e profetas: que toda a potestade que se forma como poder de si, é força de morte; a segunda morte, a que apodrece a alma na vitória de inacabáveis destruições; a que ergue as torres do orgulho e nos separa da criação, fechando e sufocando a vida, num mundo que se pensa justificado no nada de si; a que nos afunda nas trevas do isolamento mais fundo; esse, que vem do desespero e da separação primeira; que erguendo-se tonitruante clama vir reconfigurar o mundo à sua maneira e adequação, e que nesse clamor abafa a única coisa em que estas afinal se desvelam: o sopro de si que se perde no outro e na criação, e que estes ama na sua inteira diferença; e que nas infindas e originais formas e forças da vida, se reencontra mergulhado no verbo do deus criador a quem tudo retorna depois do vazio, em divina plenitude.

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Suspende-se aqui a bloguice; se nenhuma pura violência irromper, regressa-se a 5 de Outubro 2009. Saudações a todos, precisa e imprecisamente – na saúde e na doença, nas afinidades e nas divergências, a verdade nos acompanhe pois, onde dói e onde alegra; sangue e santidade ergamos: a Deus, até já, à vossa!